A primeira vez que mostrei um Puro Sangue Inglês galopando numa esteira de alta velocidade para cavalos, no Haras Tango, a pergunta veio quase igual de todo mundo que apareceu por lá: para que isso, se o animal pode correr na pista?
Respondo a mesma coisa até hoje. A pista mostra o resultado. A esteira mostra o processo.
Ambiente controlado muda o que você consegue medir
Numa manhã de trabalho na pista, muita coisa muda ao mesmo tempo. O piso amanheceu mais pesado, o vento entrou de lado na reta oposta, o cavaleiro pesa três quilos a mais que o de ontem, o animal foi para a curva colado em outro cavalo e apertou sozinho. Se a frequência cardíaca subiu, qual dessas variáveis é responsável?
Na esteira você fixa a velocidade e a inclinação, e a única coisa que varia é o cavalo. O esforço passa a ser uma dose, com número, e não uma impressão. É isso que permite repetir o mesmo teste daqui a três semanas e comparar de verdade.
Foi por esse caminho que chegamos ao trabalho com o fisiologista Dr. David Evans, da Universidade de Sydney. Ele já vinha estudando exercício equino com esse método, e trouxe para o Haras Tango um protocolo que a gente foi adaptando à nossa realidade de pista e de clima.
Os números que passamos a acompanhar
Três medidas sustentam quase toda a leitura.
A V200 é a velocidade em que o coração do animal bate 200 vezes por minuto. Quanto mais rápido ele consegue ir mantendo essa mesma frequência, melhor está a condição aeróbica. Acompanhar a V200 ao longo das semanas é a forma mais honesta de saber se o treino está construindo alguma coisa.
A VLa4 é a velocidade em que o lactato no sangue chega a 4 mmol por litro, o ponto em que o animal começa a acumular mais do que consegue eliminar. Ela indica onde termina o trabalho que dá base e onde começa o trabalho que cansa.
A terceira é a recuperação. Quanto a frequência cardíaca cai nos dois, cinco e dez minutos depois do esforço. Cavalo que recupera devagar está avisando alguma coisa, mesmo quando parece bem.
Nenhum desses números, sozinho, diz se o cavalo vai ganhar. A curva deles ao longo de oito ou dez semanas diz se o trabalho está rendendo ou apenas gastando o animal.
A parte que mais surpreende quem assiste
Boa parte das obstruções de vias aéreas altas só aparece em esforço máximo. O cavalo é examinado em repouso, o endoscópio não acusa nada, e na prova ele para nos últimos 400 metros sem explicação.
Com o animal galopando na esteira, dá para filmar a laringe e o palato durante o esforço. Deslocamento dorsal do palato mole e hemiplegia laríngea aparecem ali, na hora, com imagem. Já vi um diagnóstico desses mudar a decisão de venda de um animal em uma tarde.
O que a esteira não faz
Ela não substitui o treinamento de pista, e quem trata a esteira como atalho se dá mal.
Não tem curva, não tem piso irregular, não tem o peso do jóquei nem outro cavalo do lado apertando. Existe animal que entrega ótimos números na esteira e não rende na pista por temperamento, por não suportar o galope em grupo ou por não gostar de barro. A esteira é instrumento de medida e de dosagem, e a pista continua sendo o lugar onde a resposta final aparece.
Vale lembrar também que o cavalo precisa aprender a galopar na esteira. São algumas sessões de adaptação antes de qualquer teste valer alguma coisa, e animal mal adaptado gera número ruim.
Por que ainda é exceção no Brasil
Custa caro, exige equipe treinada e dá trabalho. Medir significa protocolo, repetição e registro, sessão após sessão, com alguém anotando tudo. É mais fácil olhar o cavalo e achar que está bem.
No Haras Tango, os animais acompanhados dessa forma conquistaram vitórias e colocações em provas de Grupo. Concilium, Senatus, Tango Uno, Verdena, American Storm, Vinculum e Questionaire passaram por esse trabalho. Décadas depois, a esteira de alta velocidade segue rara nos centros de treinamento brasileiros, e quem tem uma à disposição sem medir nada está usando um equipamento caríssimo como pista coberta.